sábado, 21 de junho de 2025


 

Alinhavos

Em meio a tecidos coloridos, linha, agulha e tesoura, nasce algo que vai muito além dos modelos ou figurinos. É uma história que se tece aos poucos, feita de silêncios, de timidez, e de coragem, que cresce na medida em que o medo se rende.

Desde pequena, o mundo parecia grande demais para aquelas pouca palavras que saíam da boca e para os olhares que insistiam em querer decifrar o que ela não sabia como dizer. O silêncio era o refúgio, um esconderijo seguro. Até que, um dia, diante da velha máquina de costura da avó, algo despertou. Não foi só uma paixão pela arte de criar, mas o começo de uma voz que não precisava sair em som para ser ouvida.

Foi costurando que Allana Leite encontrou um jeito de se revelar pelas cores, formas, texturas que ela mesma escolhia . Cada peça  era um grito mudo, uma afirmação de quem estava ali, firme, mesmo quando o nervosismo apertava o peito e a timidez sussurrava para recuar.

Não foi fácil. O medo de se mostrar era real, assim como o vazio que às vezes se instalava no meio do caminho. No entanto, a câmera, estranhamente, deu espaço para ser mais livre. Ali, longe do olho a olho, surgia a chance de se expressar sem pressa, no seu tempo. Era um mundo novo, feito para quem sente demais e fala pouco.

E no meio das estampas, cores vibrantes que carregam toda uma cultura, um passado e uma força, encontrou também sua identidade. Um elo entre a ancestralidade que pulsa nas veias e o sonho de um futuro desenhado com suas próprias mãos. Cada desenho no tecido conta essa história, da resistência, da beleza e do orgulho.

Conciliar escola, loja, vida pessoal, sonhos e desafios é uma dança constante. Cada dia traz o peso das responsabilidades, mas também a certeza de que o caminho vale a pena. A educação não é só uma obrigação, é a ponte para a liberdade que ela deseja construir.

Quem compra uma peça não leva só roupa, leva cuidado, atenção, respeito. Um encontro entre gerações e histórias, entre o que se aprende no manual e o que se sente no coração. A cada cliente, uma troca que fortalece o que já começou dentro dela: o desejo de inspirar e mostrar que é possível começar pequeno e crescer com autenticidade.

O passado de timidez e ansiedade ainda ressoa, mas não é mais prisão. É parte da trama que forma a coragem de continuar, de levantar após cada tropeço, de acreditar no que ainda vai acontecer. E quando pensa em tudo isso, sabe que o apoio da família é a linha invisível que segura tudo, que dá firmeza para os passos, que acolhe nos dias difíceis.

Hoje, mais do que sonhos, existem conquistas.O prazer de vestir uma peça feita por ela mesma, de presentear quem ama com algo que carrega seu toque, sua história. O futuro é um tecido aberto, esperando para ser preenchido com novos pontos, cores e emoções.

Assim, entre costuras e escolhas, ela vai alinhavando não só roupas, mas a própria vida, com um orgulho silencioso e profundo, daquele que nasce quando a gente reconhece o valor de cada passo dado, mesmo que o mundo ainda peça mais palavras do que ela consegue dizer.


@la_moda_atelier



 

domingo, 15 de junho de 2025

 




Oito Patas

Recentemente, estava sentada na varanda da minha casa, apreciando minhas plantinhas, quando deparei-me com uma cena impactante, linda e até engraçada. Ouvi os passos apressados de uma moça de cabelos cacheados soltos ao vento, sendo praticamente puxada por suas duas cadelinhas que dividiam a mesma coleira.

Já havia cruzado com elas outras vezes, mas naquele dia algo diferente me chamou a atenção. As cadelinhas atendiam pelos nomes de Ágatha ,uma pug de focinho achatado, cauda enrolada e respiração ofegante, que transmitia um afeto encantador pela dona .E Jade, uma poodle branca, elegante, ativa e cheia de personalidade, dessas que gostam de “arrumar um barraco” de vez em quando. Descobri os nomes ao ouvir a moça chamá-las com carinho e constância, como quem conversa com velhas companheiras.

Fiquei observando aquela cena com ternura. Pensei no motivo que teria levado a dona a nomeá-las com nomes de joias raras. Talvez porque, de fato, eram o seu maior tesouro. Enquanto as duas cadelas puxavam a moça pelas ruas do bairro, ela sorria. Um sorriso leve de quem sabe que está segurando a felicidade pelas mãos.

O amor e a cumplicidade que uniam aquelas três almas por uma única coleira era comovente. Oito patas atadas por laços invisíveis ao coração daquela jovem, que não precisava dizer nada: os olhares trocados entre elas diziam tudo. Havia ciúmes, disputas por um colo, pequenas birras. Mas também havia calma, acolhimento, entrega. Era um laço sem cobranças, sem regras ,um vínculo puro, que se bastava na alegria da convivência.

Ao vê-las, me peguei refletindo sobre nossas relações humanas, tantas vezes marcadas por ruídos, desconfianças e distâncias. Será que andamos esquecendo do “olho no olho”? Por que tanto se resolve no grito, na rigidez, no “dente por dente”? Onde se perdeu a ternura?

Em determinado momento, a moça pegou Jade no colo. Ágatha, indignada, correu e começou a pular em suas pernas, exigindo seu lugar de volta. A cena poderia terminar em confusão, mas bastou um carinho, um gesto suave da dona sobre a cabeça de Ágatha, para que tudo se acalmasse. Um afago que dizia: “Eu também te vejo”.

E assim seguiram adiante, sobre as pedrinhas soltas do asfalto quente, as oito patas preciosas que, juntas, davam sentido à caminhada de uma moça , que talvez tenha encontrado, naquele pequeno ritual cotidiano, um jeito muito simples de ser feliz.

O nome dela é Camila Santos Oliveira, tem 21 anos, é estudante de Psicologia ,e talvez, sem perceber, já tenha compreendido na prática o que muitos ainda buscam nos livros: que amor, afeto e presença são as terapias mais profundas da vida.

 


segunda-feira, 2 de junho de 2025

 



Do casulo ao voo 

Ela não virou outra pessoa. Apenas floresceu no que sempre foi.

Antes de qualquer outra história que eu venha a contar neste espaço, preciso começar por ela: Arlete Cardoso Malini Costa. Minha mãe. Uma mulher que, prestes a completar oitenta anos, continua surpreendendo o tempo, o mundo e a todos nós. Em 2021, tive a alegria de escrever um livro sobre sua trajetória: Do Casulo ao Voo. Mas nenhuma palavra, nenhuma página, foi capaz de conter tudo o que ela representa. Porque Arlete não cabe numa biografia. Ela se espalha nos gestos, nas memórias, no cheiro de café que invade sua casa todas as manhãs. É feita de presença, de silêncio que acolhe e de histórias que aquecem .

Nascida numa família numerosa, como tantas brasileiras, Arlete teve que deixar os sonhos guardados na gaveta para trabalhar. Começou cedo na lavoura, depois virou empregada doméstica, e foi ali, que encontrou o amor. Mas o início não foi de conto de fadas. Foi de abandono, julgamento e solidão. Mãe adolescente, estigmatizada por ser pobre. A sociedade lhe virou o rosto. Ela, por sua vez, não baixou os olhos. Enfrentou com firmeza, com uma dignidade que não gritava, mas que se impunha em cada gesto, em cada passo dado mesmo com medo.

Nada foi fácil. Mas ela fez o improvável: transformou pedras em pontes, críticas em combustível, exclusão em força. Casou-se, criou quatro filhos, acolheu netos, bisnetos e, hoje, com os pés firmes na terra , se prepara para celebrar oito décadas de vida com o mesmo entusiasmo de quem ainda tem muito por viver. Sua história é feita de superações silenciosas, de pequenas vitórias que ninguém noticiou, mas que moldaram o mundo de quem teve a sorte de crescer ao seu lado.

Não é apenas a sua trajetória que me faz escrever hoje. É o modo como ela continua a viver. Arlete não é feita de acasos; é feita de escolhas. Escolheu perdoar, mesmo quando o perdão parecia injusto. Escolheu amar, mesmo quando o amor doía. Escolheu nunca desistir de sonhar, mesmo quando tudo parecia desmoronar. Há quem diga que o tempo endurece o coração. Arlete prova o contrário: o dela só amolece, se abre, se multiplica. Não endureceu com os tombos, não amargou com as decepções. Tornou-se ainda mais inteira, mais acolhedora, mais leve.

Quem a conhece sabe. O olhar dela alcança tudo: filhos, vizinhos, amigos, conhecidos e até estranhos que passam na calçada. Ninguém escapa da sua atenção generosa. Ela reparte o que tem, mesmo que pouco, como se o amor coubesse em colheres de chá. E talvez caiba mesmo. O sorriso está sempre ali, largo. As risadas são altas, cheias de vida. Os causos nunca acabam, como se a vida precisasse mesmo ser contada em partes. E há sempre uma mesa posta, um café quente, um bolo feito, esperando alguém chegar.

Ah, Dona Arlete... que privilégio é tê-la por perto. Que sorte a nossa poder conviver com alguém que, mesmo depois de tanto, ainda cria asas. E mais: ainda ensina os outros a voar. Que seu jardim continue florido, e que suas asas, agora tão coloridas, sigam espalhando beleza por onde passam.

Viva, minha mãe. Seja feliz. Hoje e sempre.