segunda-feira, 2 de junho de 2025

 



Do casulo ao voo 

Ela não virou outra pessoa. Apenas floresceu no que sempre foi.

Antes de qualquer outra história que eu venha a contar neste espaço, preciso começar por ela: Arlete Cardoso Malini Costa. Minha mãe. Uma mulher que, prestes a completar oitenta anos, continua surpreendendo o tempo, o mundo e a todos nós. Em 2021, tive a alegria de escrever um livro sobre sua trajetória: Do Casulo ao Voo. Mas nenhuma palavra, nenhuma página, foi capaz de conter tudo o que ela representa. Porque Arlete não cabe numa biografia. Ela se espalha nos gestos, nas memórias, no cheiro de café que invade sua casa todas as manhãs. É feita de presença, de silêncio que acolhe e de histórias que aquecem .

Nascida numa família numerosa, como tantas brasileiras, Arlete teve que deixar os sonhos guardados na gaveta para trabalhar. Começou cedo na lavoura, depois virou empregada doméstica, e foi ali, que encontrou o amor. Mas o início não foi de conto de fadas. Foi de abandono, julgamento e solidão. Mãe adolescente, estigmatizada por ser pobre. A sociedade lhe virou o rosto. Ela, por sua vez, não baixou os olhos. Enfrentou com firmeza, com uma dignidade que não gritava, mas que se impunha em cada gesto, em cada passo dado mesmo com medo.

Nada foi fácil. Mas ela fez o improvável: transformou pedras em pontes, críticas em combustível, exclusão em força. Casou-se, criou quatro filhos, acolheu netos, bisnetos e, hoje, com os pés firmes na terra , se prepara para celebrar oito décadas de vida com o mesmo entusiasmo de quem ainda tem muito por viver. Sua história é feita de superações silenciosas, de pequenas vitórias que ninguém noticiou, mas que moldaram o mundo de quem teve a sorte de crescer ao seu lado.

Não é apenas a sua trajetória que me faz escrever hoje. É o modo como ela continua a viver. Arlete não é feita de acasos; é feita de escolhas. Escolheu perdoar, mesmo quando o perdão parecia injusto. Escolheu amar, mesmo quando o amor doía. Escolheu nunca desistir de sonhar, mesmo quando tudo parecia desmoronar. Há quem diga que o tempo endurece o coração. Arlete prova o contrário: o dela só amolece, se abre, se multiplica. Não endureceu com os tombos, não amargou com as decepções. Tornou-se ainda mais inteira, mais acolhedora, mais leve.

Quem a conhece sabe. O olhar dela alcança tudo: filhos, vizinhos, amigos, conhecidos e até estranhos que passam na calçada. Ninguém escapa da sua atenção generosa. Ela reparte o que tem, mesmo que pouco, como se o amor coubesse em colheres de chá. E talvez caiba mesmo. O sorriso está sempre ali, largo. As risadas são altas, cheias de vida. Os causos nunca acabam, como se a vida precisasse mesmo ser contada em partes. E há sempre uma mesa posta, um café quente, um bolo feito, esperando alguém chegar.

Ah, Dona Arlete... que privilégio é tê-la por perto. Que sorte a nossa poder conviver com alguém que, mesmo depois de tanto, ainda cria asas. E mais: ainda ensina os outros a voar. Que seu jardim continue florido, e que suas asas, agora tão coloridas, sigam espalhando beleza por onde passam.

Viva, minha mãe. Seja feliz. Hoje e sempre.

 

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