sexta-feira, 3 de outubro de 2025

                                                       



Toda vida carrega um eco

           Há vidas que passam por nós como sussurros, discretas, quase invisíveis. Gente comum, de passos apressados na calçada, de olhos cansados no transporte, de mãos cheias na fila da padaria. Mas por trás de cada rosto, há uma história esperando para ser contada. E nenhuma história é pequena demais quando se trata da alma humana.

O Eco Humano nasce do desejo de escutar o que, muitas vezes, o mundo não se dá o trabalho de ouvir. Queremos revelar o que está oculto: os sonhos adiados, os medos vencidos, as alegrias simples e os caminhos percorridos por pessoas que raramente se veem como protagonistas, mas que são, sim, fontes vivas de inspiração.

Aqui não há filtros, nem moldes. Toda história importa. Este blog é dedicado àqueles que vivem em silêncio, mas carregam dentro de si um universo inteiro. E talvez, ao conhecer essas vozes, você descubra um pouco mais de si mesmo também.

É com alegria verdadeira que abrimos esse espaço. Que ele seja abrigo, espelho e palco. E quando você sentir que chegou a hora, será um privilégio contar a sua história também.

Seja bem-vindo ao Eco Humano, onde cada pessoa importa e cada história tem voz.

@leidianemalinicosta


quarta-feira, 1 de outubro de 2025


 


Silêncio

    Dilcinha. Nome de quem carrega no som o diminutivo. Parece até apelido, como se fosse pequena, frágil, protegida por toda a delicadeza. Mas o que o nome disfarça é a fortaleza que existe em quem o sustenta. Nasceu em silêncio, e foi nesse silêncio que aprendeu a ouvir o mundo de um jeito diferente: pelos olhos, pelos gestos, pelos lábios que desenham palavras. Aprendeu a escutar com o corpo, com a atenção, com a alma. E talvez tenha sido essa escuta profunda que moldou sua forma de estar no mundo, um jeito mais sensível, mais atento, mais humano.
    Professora, surda oralizada, trabalha em uma escola pública atendendo alunos com dificuldades de aprendizagem. É daquelas educadoras raras, que acolhem os alunos em sua individualidade, que respeitam cada diferença com insistência, afeto e paciência . Quando chega à porta da sala de aula para convidá-los para mais uma aula de reforço, não precisa dizer muito: sua presença já basta para que os rostos se iluminem. Há em sua forma de ensinar algo que vai além do conteúdo.
    A vida, em suas inúmeras voltas e manifestações, nos obriga a enxergar o que antes passava despercebido. Justamente ela, que enfrentou tantos obstáculos para se comunicar com o mundo ao redor, foi escolhida , pelo destino, para ajudar crianças que também vivem seus próprios silêncios. Talvez seja por isso que tenha tanta sensibilidade. Ou talvez sejam as lembranças dos bons professores que cruzaram seu caminho, que acreditaram nela quando o mundo ainda não sabia como escutá-la, que a inspiraram a construir sua história com dedicação, paciência e afeto. Ela sabe, por experiência, que ninguém aprende sob julgamento.
    Sua voz é alta, expressiva. Seu olhar é firme, atento, sempre buscando compreender o que vai além das palavras. E quando está em meio a muitas pessoas, o silêncio que a envolve não é ausência ,é atenção. Dilcinha observa mais do que fala, compreende mais do que comenta, acolhe mais do que expõe. Sua presença é daquelas que não precisa se impor: ela se faz sentir.
    Ser uma mulher surda oralizada já é, por si só, um ato de resistência. Desde pequena, enfrentou os desafios de viver numa sociedade pensada para os ouvintes, onde faltam acessibilidade, empatia e compreensão. Conviveu com a ausência de recursos visuais, com a dificuldade de comunicação, com o preconceito e o desconhecimento sobre a comunidade surda. Viveu os ruídos da exclusão, da indiferença, do despreparo. Mas mesmo diante de tudo isso, seguiu firme. Como não seguiria? Estamos falando de alguém que enfrentou o mundo, acreditou nos próprios sonhos, decepcionou quem duvidava e, hoje, vive de forma plena e independente, como mulher, como educadora, como inspiração.
    Quando colocou os aparelhos auditivos pela primeira vez, não foi fácil. Era um novo mundo sonoro, estranho, confuso, cheio de nuances que ela nunca havia experimentado. Mas, aos poucos, foi descobrindo que a vida também tinha uma melodia , feita de sons que ela foi aprendendo a decifrar. A voz das pessoas, o barulho da rua, o som da chuva, o riso de uma criança. Cada descoberta era uma nota nessa nova partitura. Mas a história de Dilcinha não é apenas sobre aprender a ouvir. É, sobretudo, sobre aprender a enxergar o mundo que está a nossa volta.
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

                               




                                                   Correr 
            Correr sempre foi a sua escolha. A vida parecia, a todo momento, escorregar de suas mãos. Ela precisava correr, alcançar o máximo de sua resistência, precisava se testar a cada dia. Alcançou a linha de chegada.
            Algumas pessoas passam pelo mundo deixando a impressão de que estão sempre em busca de algo. Procuram, incansáveis, como em uma eterna caça ao tesouro. A cada pista descoberta, sentem-se mais perto, mais próximas. Até que o grande dia chega e, quando acontece, recomeçam a brincadeira sem fim.
        Nessa corrida, entre pistas e descobertas, constroem sua personalidade e, generosamente, distribuem os tesouros da vida a quem as cerca, sem cobrança alguma, apenas pelo prazer de se doar.
        Ana Cláudia Carriço, minha querida amiga Claudinha, este texto é para você. Uma pena não ter conseguido homenageá-la em vida. Eu tentei, mas você nunca deixou. Recusava sempre, como se não precisasse de plateia para exibir o grande espetáculo que foi a sua existência.
        Escrever estas linhas não é fácil, mas é necessário.
        Dona de uma alegria rara, iluminava os lugares por onde passava. Suas gargalhadas, seu jeito de defensora da justiça, transformavam o ambiente. Sua capacidade de se adaptar às mudanças era admirável. As pedras no caminho nunca foram obstáculos: eram degraus para a vitória.
        Ah, vitoriosa, é assim que sempre vou te ver. Professora há mais de 30 anos, faltou tão pouco para a tão sonhada aposentadoria. Mas o coração já te preparava para a verdadeira missão: deixar um legado que não tem preço. Seus filhos, seu marido, sua neta, esta sua paixão maior.
     Os planos não eram parar, mas acelerar. Correr. Viver. E foi exatamente isso o que fez. Quantas histórias partilhadas, quantas lágrimas derramadas, mas, no fim, sempre uma gargalhada. Porque você descobriu o que tantos procuram e talvez nunca encontrem: o presente. Você viveu o presente. Planejava o futuro, sim, mas não esperava por ele.
      Nos ensinou a amar sem medida, a se doar sem medida, a ser feliz sem medida. Minha amiga, eu sei bem da fé que te guiava. Tenho certeza de que essa fé te entregou a medalha mais esperada: estar ao lado de Deus.
 

 

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terça-feira, 29 de julho de 2025


 

Ela sempre esteve lá

Ela sempre esteve lá. Todos os dias, quando chegava da escola com muita fome, antes de qualquer mordida no prato, vinha o compromisso: rezar o terço com sua mãe, acompanhando a Rádio Cachoeiro. Quem não rezasse, não comia. Parecia uma obrigação. Mas foi assim, por meio dessa rotina que se tornou obediência, que nasceu e permaneceu algo maior: a fé.

Poderia ser uma história de tristezas, angústias e desolação, mas é uma história de fé. Marilete viveu uma infância entre experiências positivas e negativas, percorreu muitos caminhos, alguns desconhecidos, outros dolorosos, e, em todos eles, lá estava ela: a sua fé.

Esse sentimento nasceu daquela “obrigação” de rezar o terço, e cresceu acompanhada pelas mãos de Deus e de Nossa Senhora. Desde cedo, Marilete aprendeu que bastava se ajoelhar para que Deus a ouvisse. Os sinais d’Ele a seguiram por toda a vida. Na adolescência, nos grupos de jovens; na juventude, grávida, ao passar pela Igreja da Consolação, em Cachoeiro de Itapemirim – ES, ela parava para conversar com Nossa Senhora da Pompéia. Não se importava com os olhares curiosos , seus olhos fixavam os olhos doces da imagem, e, em sua intimidade, sentia a certeza de que tudo o que pedia por meio daquela intercessão seria atendido.

Com o tempo, a intimidade com Deus cresceu. Ela passou a entrar na igreja para conversar diretamente com Jesus. Ali era seu lugar sagrado, onde depositava sonhos distantes e segredos guardados.

            A conversão veio como um voo entre mundos. Quando o medo surgia, ela ouvia nitidamente:
            — Filha, comece amando o meu povo. O amor supera tudo.

Mas o medo da morte… esse foi um muro. Um buraco sem saída. A provação chegou de forma inesperada. Primeiro uma dor de cabeça, depois um mal-estar insistente. Ela perguntava a Deus onde estava a resposta. Durante uma missa, abriu o coração. Reclamou com Deus. A revolta ameaçava emergir. E então ouviu:

            — Cuide do seu lado direito.

Confusa, questionou. Era o coração que doía, não o lado direito. Mas a frase se repetia:

__ Cuide do seu lado direito.

Ela ouviu. E investigou. Exames, esperas, diagnósticos… Até que veio a notícia: câncer de mama. O mundo desabou. A dor cresceu. Mas ela estava lá: a fé. Aquela mesma fé plantada nas primeiras ave-marias aos doze anos. Agora, ela era o que sustentava.

Veio o deserto. Quimioterapia. Radioterapia. Perda dos cabelos. Dores intensas.

Eu chorava muito com aquela situação... Cheguei a pedir a morte.

Mas a fé não permitiu que ela se rendesse. Com a ajuda da família, dos profissionais e, principalmente, de Deus, Marilete reencontrou o que realmente importava: lutar pela vida. Abriu o baú da sua alma e resgatou aquela mulher que falava com os olhos de Nossa Senhora, que se ajoelhava aos pés de Jesus. Percebeu que precisava se amar acima de tudo. E aquela frase que tantas vezes ouvira de Deus começou a fazer sentido. Através da dor, enxergou a transformação. A doença se tornou instrumento para Deus agir onde ela mesma não conseguia.

E foi pela fé que Marilete venceu. Venceu a dor. Venceu o medo. Venceu o câncer.

Porque ela sempre esteve lá.
A fé.
Silenciosa, firme, viva.
A força que não falha quando tudo parece desmoronar.
A voz que ainda hoje sussurra:
O amor supera tudo.


quarta-feira, 23 de julho de 2025


 

Ritmo 

“Todo começo é doloroso. Lembrar dos processos é difícil. Todas as dores que passamos para alcançar nossos objetivos são marcas que carregamos. Não importa o lado da moeda em que estamos, se somos empreendedores ou contratados, a base é sempre a mesma: manter-se firme, saber o seu valor, confiar no seu diferencial.

Eu sempre soube qual era o meu. Desde o início, mesmo quando tudo o que eu tinha era uma caixinha de som e uma iluminação simples, meu coração sabia o que queria. Aquela luz que piscava, quase sem força, acendia dentro de mim uma vontade que não cabia no peito. E é exatamente isso que me deu coragem. Hoje, ao abrir os olhos todas as manhãs, olho ao redor, vejo até onde cheguei e agradeço a Deus por manter meus pés firmes na essência.”

O caminhão estaciona. No compasso calmo da manhã ou no silêncio de uma madrugada qualquer, ele para diante do depósito e, aos poucos, começa a ser preenchido. O que se coloca ali dentro não são apenas equipamentos. São sonhos. São partes de histórias embaladas com zelo: caixas de som, luzes, painéis, TVs, cabos enrolados com cuidado. Cada item é carregado com o mesmo respeito com que se manuseia algo frágil. Ao fechar a porta e girar a tranca, o que se sela ali é o início de mais uma história a ser escrita.

Realizar. Esse sempre foi o maior propósito de Dj Malini. Levar alegria. Criar momentos. Acender emoções. No Espírito Santo, ele se tornou ícone no ramo de estruturas e eventos. Mas por trás do nome respeitado e da referência que se construiu, existe o menino curioso: Anderson Malini de Souza. O menino que viveu muitas infâncias , carregando nas malas pequenas, lembranças e grandes aprendizados.

A ausência do pai deixou espaço. Mas não vazio. Foi preenchido pela força silenciosa e determinada da mãe que sempre  foi a sua direção. Falar dela ainda hoje traz emoção.

Na casa onde cresceu, não se pronunciava a palavra “desistir”. Não havia espaço para “não consigo” ou “é impossível”. A mãe puxava força de onde ninguém via. E fez isso por todos os dias da vida dele. Plantou convicções que o acompanharam em cada passo, mesmo nos mais difíceis.Tornando assim possível , os sonhos distantes.

A música não foi o primeiro sonho. No ensino médio, Anderson seguia outro caminho. Cursou Biologia, chegou a vislumbrar uma vida entre laboratórios e estudos da natureza. Ainda guarda com carinho esse tempo, esse desejo, esse rascunho de futuro. Mas o coração tinha outra batida. E ele escutou.
Começou pequeno. Uma caixinha de som. Uma luz. Um espaço simples e uma vontade imensa. De festa em festa, de evento em evento, foi colocando a alma em cada entrega.

Entrar no mercado foi como entrar em um mar já cheio de embarcações. Havia gigantes. Nomes grandes. Estruturas consolidadas. E ele, do lado de fora, apenas com a vontade. Mas não se intimidou. Tinha algo que não se comprava: os pés fincados na verdade e na vontade.

Dj Malini sempre acreditou que reinventar-se é sobreviver. Guarda com ele a história da águia, que, ao envelhecer, precisa fazer escolhas: ou se deixa morrer, ou arranca as próprias penas, quebra o bico e nasce de novo. E foi isso que ele fez diversas vezes. Mas a virada, a grande transformação, veio com a paternidade. Sara chegou como um novo começo e, com ela, ele descobriu que ser pai é construir outro tipo de estrutura: invisível, mas sólida , um alicerce de presença, de exemplo, de cuidado. Com Gaby, a esposa, veio a base do lar: a certeza de um amor que acolhe e fortalece.

Hoje, Anderson entende que a vida se parece com uma batida musical. Tem momentos que explodem, outros que silenciam. Tem graves, tem agudos. Tem pausa, tem intensidade e aprendeu a dançar conforme a música. Aprendeu que o botão do volume está nas mãos de quem tem coragem. E que vale a pena insistir. Sempre. Porque no fim, o que sustenta a sua  caminhada é isso: um ritmo forte, que vem de dentro e não permite parar.


@djmalini_oficial

terça-feira, 22 de julho de 2025


 

Curvas

 Você não é o que te aconteceu, você é o que escolhe se tornar.” Foi o que o pai de Lany Correia disse quando ela ainda era uma menina de onze anos. A frase veio como semente e, com o tempo, criou raízes profundas.

Naquela época, o mundo de Lany ruía em silêncio. A separação dos pais não foi apenas uma ruptura familiar, mas uma convocação precoce à responsabilidade. A infância, que deveria ser tempo de acolhimento e proteção, foi interrompida por escolhas que nenhuma criança deveria ter que fazer, como cuidar do pai e do irmão, tentando preencher os vazios que a ausência materna deixou.

Foi justamente ali, no meio da incerteza, que ela aprendeu que a dor pode ser reescrita. Decidiu que não seria uma consequência do que lhe aconteceu, mas autora do que viria a ser. A frase do pai virou farol em meio ao caos. E ela, ainda tão jovem, começou a praticar uma das habilidades mais raras e corajosas que alguém pode desenvolver ao longo da vida: ressignificar.

Ressignificar não é esquecer. É transformar. É olhar para as perdas e decidir que elas não vão te definir. É ensinar aos próprios olhos um novo jeito de enxergar a realidade. E foi exatamente isso que Lany fez, inúmeras vezes, mesmo quando tudo parecia conspirar contra.

A adolescência não trouxe abrigo, trouxe mais um teste. Tornou-se mãe muito jovem e, logo depois, já vivia a maternidade solo. Era como se a vida lhe entregasse, em cada fase, uma nova prova de resistência. E ela seguia, sem manual, mas com um senso de missão que impressiona. O sonho não era apenas sobreviver, era garantir aos filhos um lugar onde eles pudessem crescer com dignidade, valores e sonhos. Um lugar onde ser feliz não fosse luxo, mas direito.

Sem modelo materno, ela precisou inventar-se mulher. E, para isso, teve que primeiro educar a si mesma. Nessa travessia, descobriu que ensinar valores exige mais do que palavras: exige coerência. E, mesmo sem ter tido muitos exemplos, ela se tornou um.

Foi construindo seu caminho a partir das pequenas possibilidades que a vida oferecia. Quando olhava para os filhos e via neles alegria, esperança e ética, sentia que estava no rumo certo. Não havia mapa, mas havia bússola, havia GPS, e eram eles.

Trabalhou em lanchonete, fez cursos de beleza, tentou com coragem empreender com uma loja de roupas online. Não deu certo, mas ela não se deteve. Desabafou com uma amiga e, ao ouvir a sugestão de fazer um curso de cabelo, sua primeira reação foi rir. Como poderia cuidar do cabelo alheio se nem sabia lidar com o próprio? Mas foi. E foi ali, onde tudo parecia improvável, que descobriu seu dom. Descobriu o talento, o amor pela técnica, a sensibilidade que suas mãos tinham ao tocar uma história contada em fios.

Hoje, é referência na área, especialista em cabelos com curvaturas. E sua atuação vai além da estética. Ela toca vidas. Ensina outras mulheres a se aceitarem como são, resgata a identidade que muitas tentaram esconder ou esquecer. Cabelo, para ela, é território de autoestima, é lugar de pertencimento. Ao cuidar de cada cabelo, ela afirma que você pode ser você. E isso basta.

A história de Lany, 39 anos, é um retrato de força, reinvenção e escolha. Ela mostra que não precisamos aceitar os rótulos que a vida tenta nos impor. Que é possível transformar ausência em presença, dor em propósito, fragilidade em firmeza. Sua trajetória além  um exemplo de superação, é um lembrete poderoso de que todos nós temos o direito e a responsabilidade, de nos tornarmos quem desejamos ser. Porque, no fim, o que realmente nos define não são as curvas da vida, mas o caminho que decidimos tomar.

 


segunda-feira, 21 de julho de 2025


 

                                                                   Semeador de histórias

 

O telefone toca. Do outro lado, uma nova missão. Ele escuta, anota o endereço e sorri. Já sabe: é dia de partir. No dia marcado, a preparação é simples. Pega a mochila, escolhe os livros com carinho, ajeita tudo com cuidado e sai. Vai como quem planta. Vai como quem sonha.

Para muitos, a leitura é importante. Para Aélcio de Bruim, a leitura é a própria vida. É paixão, é pulsação, é o que mantém o coração batendo com força. Professor aposentado, escritor , leitor incansável, ele não sossega enquanto não vê a literatura ganhar asas.

Natural de Cachoeiro de Itapemirim, terra de Rubem Braga, Aélcio tem no peito o mesmo amor pelas palavras que o cronista consagrou. Autor de contos, poesias, cordéis e memórias, ele não guarda para si o que escreveu. Ao contrário: leva seus livros às escolas públicas da cidade, entrega cada exemplar como quem entrega um presente sagrado. E faz isso com as próprias mãos, com o próprio tempo, com o próprio coração. Seu amor pela literatura foi lapidado ainda na juventude, nos corredores da UFES, no início da década de 1980, onde estudou com mestres e doutores das letras, e fez amizades com poetas e escritores. Ali, aprendeu que quem escreve um conto, uma poesia, uma crônica, abre janelas,e  que através delas, é possível enxergar a vida com bons olhos. Hoje, aposentado, Aélcio segue levando leituras a crianças, adolescentes e jovens, porque acredita que a leitura melhora o ser humano .E pessoas melhores formam famílias melhores, um mundo melhor.

Fico imaginando o que se passa dentro dele quando vê aqueles olhos pequenos, atentos, brilhando ao receber um livro. Que mundo se abre ali? Que laço silencioso se forma entre o escritor e a criança? Há algo que transborda nessas entregas ,algo que não cabe em palavras. Porque, para a criança, é um presente. Mas, nos olhos de Aélcio, também há encantamento. Ele parece dizer : “O futuro está em você. Você pode. Você é capaz.”

Esses encontros são mais do que visitas escolares. São celebrações,marcos na vida de quem dá e de quem recebe. Mesmo aqueles pequenos que ainda não sabem ler recebem o gesto com uma reverência silenciosa, como se reconhecessem ali um jóia rara, uma força boa. O livro chega antes das palavras. E o afeto chega antes do entendimento.

Aélcio não distribui apenas livros. Distribui sementes. Em tempos de telas, pressas e distrações, ele escolhe semear devagar. Compete com o barulho do mundo, com as luzes dos celulares, com as seduções do agora. E mesmo assim insiste. Mesmo assim acredita.

Ah, seu Aélcio… Que grandeza há nesse gesto tão simples. O senhor carrega consigo o dom mais bonito que há: o dom de amar. De doar tempo, palavra e esperança. Aos 74 anos, poderia ter parado. Poderia ter escolhido o descanso. Mas escolheu seguir. Escolheu insistir.

E aí fica uma dúvida que não se cala: quem ganha mais com tudo isso? A criança que recebe o livro? Ou o semeador que vê a alma florescer diante do próprio gesto?

Quem dera o mundo existissem mais pessoas como Aélcio . Gente que espalha letras por onde passa. Gente que entende que ler é liberdade. E que plantar histórias é, na verdade, plantar futuros.


@aelciodebruim

 

domingo, 20 de julho de 2025


 

Atrevida

Atrevida. Palavra que na boca de muita gente soa como desafio, ousadia, até um certo exagero. Mas quando falamos de Danielle dos Santos de Freitas, 42 anos e da sua história, "atrevida" ganha outro peso: o peso leve de quem tem coragem de sonhar quando tudo pede silêncio, de quem planta esperança em plena tempestade.

Foi exatamente assim que nasceu a Maria Atrevida ,uma loja, sim, mas também um abrigo de sonhos. Dani abriu suas portas em plena pandemia, quando o mundo inteiro se recolhia com medo. Atrevida, sim, mas também cuidadosa. Sabia que não era o momento ideal, mas foi o que ela tinha. E quando tudo falta, a gente aprende a fazer do pouco um caminho.

Nunca teve medo de trabalho. O que ela queria era independência, dignidade, liberdade de criar, de sustentar o filho e de, quem sabe, transformar o dia de uma mulher com uma roupa que diz: "Você pode." Porque ela acredita, de verdade, que autoestima também é ferramenta de mudança. Que um look bonito pode ser a primeira ferramenta de uma mulher que está reconstruindo tudo.

O momento de transformação aconteceu quando ela percebeu que não era preciso esperar tudo estar perfeito para começar. Com um filho pequeno  e a força nos próprios passos, decidiu fazer do possível o agora. Atendia com hora marcada, entre tarefas, silêncios e dias em que nenhuma venda aparecia. Mas seguia. Com delicadeza e a persistência de quem sabe que flores não nascem de um dia para o outro , mas nascem.

Dani descobriu que ser mulher de negócio não é só vender. É transformar, inspirar, acolher. E acolhimento, aliás, é o que não falta na Maria Atrevida. Quem passa em frente à loja sente. A vitrine tem sua alma: corajosa, colorida, cheia de intenção. Cada detalhe tem a mão dela,e mais que isso, tem seu olhar.

O momento mais emocionante foi quando a loja dos sonhos deixou de ser apenas um pensamento. Durante muito tempo, ela passava em frente àquele ponto comercial e, mesmo com outra loja ocupando o espaço, já enxergava ali a vitrine da Maria Atrevida. Sempre se pegava pensando: quem sabe um dia... Até que, numa tarde de sexta-feira, viu a cena que parecia um sinal ,a loja estava sendo desmontada. Sem pensar duas vezes, correu até lá. Não tinha o capital necessário, mas tinha fé. Pegou o número, agendou uma visita e, com coragem no peito, decidiu dar mais um passo. Foi ali que tudo mudou. Ela viu a mão de Deus em cada detalhe , e entendeu que fé é capital de investimento , e  que quando o sonho encontra a coragem, o impossível se abre.

Hoje, Dani e “Maria Atrevida” se confundem. A empreendedora e a loja são espelhos uma da outra. “Sou Maria também”, ela diz com sorriso no rosto. É sim. Porque ser atrevida, no fundo, é isso: começar mesmo com medo, continuar mesmo sem aplauso, e acreditar mesmo quando ninguém mais acredita.

A história de Dani é sobre processos. Sobre passos que doem, que cansam, que parecem lentos, mas são exatos. Não existe atalho pra quem quer algo verdadeiro. É preciso respeitar o tempo das coisas, o tempo do casulo, o tempo da coragem nascer.

E se tem algo que Dani nos ensina, com cada peça que pendura e com cada mulher que acolhe, é que não existe vitória sem entrega. E que às vezes, ser atrevida é o único jeito de ser inteira.

@mariaatrevida


sábado, 21 de junho de 2025


 

Alinhavos

Em meio a tecidos coloridos, linha, agulha e tesoura, nasce algo que vai muito além dos modelos ou figurinos. É uma história que se tece aos poucos, feita de silêncios, de timidez, e de coragem, que cresce na medida em que o medo se rende.

Desde pequena, o mundo parecia grande demais para aquelas pouca palavras que saíam da boca e para os olhares que insistiam em querer decifrar o que ela não sabia como dizer. O silêncio era o refúgio, um esconderijo seguro. Até que, um dia, diante da velha máquina de costura da avó, algo despertou. Não foi só uma paixão pela arte de criar, mas o começo de uma voz que não precisava sair em som para ser ouvida.

Foi costurando que Allana Leite encontrou um jeito de se revelar pelas cores, formas, texturas que ela mesma escolhia . Cada peça  era um grito mudo, uma afirmação de quem estava ali, firme, mesmo quando o nervosismo apertava o peito e a timidez sussurrava para recuar.

Não foi fácil. O medo de se mostrar era real, assim como o vazio que às vezes se instalava no meio do caminho. No entanto, a câmera, estranhamente, deu espaço para ser mais livre. Ali, longe do olho a olho, surgia a chance de se expressar sem pressa, no seu tempo. Era um mundo novo, feito para quem sente demais e fala pouco.

E no meio das estampas, cores vibrantes que carregam toda uma cultura, um passado e uma força, encontrou também sua identidade. Um elo entre a ancestralidade que pulsa nas veias e o sonho de um futuro desenhado com suas próprias mãos. Cada desenho no tecido conta essa história, da resistência, da beleza e do orgulho.

Conciliar escola, loja, vida pessoal, sonhos e desafios é uma dança constante. Cada dia traz o peso das responsabilidades, mas também a certeza de que o caminho vale a pena. A educação não é só uma obrigação, é a ponte para a liberdade que ela deseja construir.

Quem compra uma peça não leva só roupa, leva cuidado, atenção, respeito. Um encontro entre gerações e histórias, entre o que se aprende no manual e o que se sente no coração. A cada cliente, uma troca que fortalece o que já começou dentro dela: o desejo de inspirar e mostrar que é possível começar pequeno e crescer com autenticidade.

O passado de timidez e ansiedade ainda ressoa, mas não é mais prisão. É parte da trama que forma a coragem de continuar, de levantar após cada tropeço, de acreditar no que ainda vai acontecer. E quando pensa em tudo isso, sabe que o apoio da família é a linha invisível que segura tudo, que dá firmeza para os passos, que acolhe nos dias difíceis.

Hoje, mais do que sonhos, existem conquistas.O prazer de vestir uma peça feita por ela mesma, de presentear quem ama com algo que carrega seu toque, sua história. O futuro é um tecido aberto, esperando para ser preenchido com novos pontos, cores e emoções.

Assim, entre costuras e escolhas, ela vai alinhavando não só roupas, mas a própria vida, com um orgulho silencioso e profundo, daquele que nasce quando a gente reconhece o valor de cada passo dado, mesmo que o mundo ainda peça mais palavras do que ela consegue dizer.


@la_moda_atelier



 

domingo, 15 de junho de 2025

 




Oito Patas

Recentemente, estava sentada na varanda da minha casa, apreciando minhas plantinhas, quando deparei-me com uma cena impactante, linda e até engraçada. Ouvi os passos apressados de uma moça de cabelos cacheados soltos ao vento, sendo praticamente puxada por suas duas cadelinhas que dividiam a mesma coleira.

Já havia cruzado com elas outras vezes, mas naquele dia algo diferente me chamou a atenção. As cadelinhas atendiam pelos nomes de Ágatha ,uma pug de focinho achatado, cauda enrolada e respiração ofegante, que transmitia um afeto encantador pela dona .E Jade, uma poodle branca, elegante, ativa e cheia de personalidade, dessas que gostam de “arrumar um barraco” de vez em quando. Descobri os nomes ao ouvir a moça chamá-las com carinho e constância, como quem conversa com velhas companheiras.

Fiquei observando aquela cena com ternura. Pensei no motivo que teria levado a dona a nomeá-las com nomes de joias raras. Talvez porque, de fato, eram o seu maior tesouro. Enquanto as duas cadelas puxavam a moça pelas ruas do bairro, ela sorria. Um sorriso leve de quem sabe que está segurando a felicidade pelas mãos.

O amor e a cumplicidade que uniam aquelas três almas por uma única coleira era comovente. Oito patas atadas por laços invisíveis ao coração daquela jovem, que não precisava dizer nada: os olhares trocados entre elas diziam tudo. Havia ciúmes, disputas por um colo, pequenas birras. Mas também havia calma, acolhimento, entrega. Era um laço sem cobranças, sem regras ,um vínculo puro, que se bastava na alegria da convivência.

Ao vê-las, me peguei refletindo sobre nossas relações humanas, tantas vezes marcadas por ruídos, desconfianças e distâncias. Será que andamos esquecendo do “olho no olho”? Por que tanto se resolve no grito, na rigidez, no “dente por dente”? Onde se perdeu a ternura?

Em determinado momento, a moça pegou Jade no colo. Ágatha, indignada, correu e começou a pular em suas pernas, exigindo seu lugar de volta. A cena poderia terminar em confusão, mas bastou um carinho, um gesto suave da dona sobre a cabeça de Ágatha, para que tudo se acalmasse. Um afago que dizia: “Eu também te vejo”.

E assim seguiram adiante, sobre as pedrinhas soltas do asfalto quente, as oito patas preciosas que, juntas, davam sentido à caminhada de uma moça , que talvez tenha encontrado, naquele pequeno ritual cotidiano, um jeito muito simples de ser feliz.

O nome dela é Camila Santos Oliveira, tem 21 anos, é estudante de Psicologia ,e talvez, sem perceber, já tenha compreendido na prática o que muitos ainda buscam nos livros: que amor, afeto e presença são as terapias mais profundas da vida.

 


segunda-feira, 2 de junho de 2025

 



Do casulo ao voo 

Ela não virou outra pessoa. Apenas floresceu no que sempre foi.

Antes de qualquer outra história que eu venha a contar neste espaço, preciso começar por ela: Arlete Cardoso Malini Costa. Minha mãe. Uma mulher que, prestes a completar oitenta anos, continua surpreendendo o tempo, o mundo e a todos nós. Em 2021, tive a alegria de escrever um livro sobre sua trajetória: Do Casulo ao Voo. Mas nenhuma palavra, nenhuma página, foi capaz de conter tudo o que ela representa. Porque Arlete não cabe numa biografia. Ela se espalha nos gestos, nas memórias, no cheiro de café que invade sua casa todas as manhãs. É feita de presença, de silêncio que acolhe e de histórias que aquecem .

Nascida numa família numerosa, como tantas brasileiras, Arlete teve que deixar os sonhos guardados na gaveta para trabalhar. Começou cedo na lavoura, depois virou empregada doméstica, e foi ali, que encontrou o amor. Mas o início não foi de conto de fadas. Foi de abandono, julgamento e solidão. Mãe adolescente, estigmatizada por ser pobre. A sociedade lhe virou o rosto. Ela, por sua vez, não baixou os olhos. Enfrentou com firmeza, com uma dignidade que não gritava, mas que se impunha em cada gesto, em cada passo dado mesmo com medo.

Nada foi fácil. Mas ela fez o improvável: transformou pedras em pontes, críticas em combustível, exclusão em força. Casou-se, criou quatro filhos, acolheu netos, bisnetos e, hoje, com os pés firmes na terra , se prepara para celebrar oito décadas de vida com o mesmo entusiasmo de quem ainda tem muito por viver. Sua história é feita de superações silenciosas, de pequenas vitórias que ninguém noticiou, mas que moldaram o mundo de quem teve a sorte de crescer ao seu lado.

Não é apenas a sua trajetória que me faz escrever hoje. É o modo como ela continua a viver. Arlete não é feita de acasos; é feita de escolhas. Escolheu perdoar, mesmo quando o perdão parecia injusto. Escolheu amar, mesmo quando o amor doía. Escolheu nunca desistir de sonhar, mesmo quando tudo parecia desmoronar. Há quem diga que o tempo endurece o coração. Arlete prova o contrário: o dela só amolece, se abre, se multiplica. Não endureceu com os tombos, não amargou com as decepções. Tornou-se ainda mais inteira, mais acolhedora, mais leve.

Quem a conhece sabe. O olhar dela alcança tudo: filhos, vizinhos, amigos, conhecidos e até estranhos que passam na calçada. Ninguém escapa da sua atenção generosa. Ela reparte o que tem, mesmo que pouco, como se o amor coubesse em colheres de chá. E talvez caiba mesmo. O sorriso está sempre ali, largo. As risadas são altas, cheias de vida. Os causos nunca acabam, como se a vida precisasse mesmo ser contada em partes. E há sempre uma mesa posta, um café quente, um bolo feito, esperando alguém chegar.

Ah, Dona Arlete... que privilégio é tê-la por perto. Que sorte a nossa poder conviver com alguém que, mesmo depois de tanto, ainda cria asas. E mais: ainda ensina os outros a voar. Que seu jardim continue florido, e que suas asas, agora tão coloridas, sigam espalhando beleza por onde passam.

Viva, minha mãe. Seja feliz. Hoje e sempre.