Oito Patas
Recentemente, estava sentada na varanda da minha casa, apreciando minhas plantinhas, quando deparei-me com uma cena impactante, linda e até engraçada. Ouvi os passos apressados de uma moça de cabelos cacheados soltos ao vento, sendo praticamente puxada por suas duas cadelinhas que dividiam a mesma coleira.
Já havia cruzado com elas outras vezes, mas naquele dia algo diferente me chamou a atenção. As cadelinhas atendiam pelos nomes de Ágatha ,uma pug de focinho achatado, cauda enrolada e respiração ofegante, que transmitia um afeto encantador pela dona .E Jade, uma poodle branca, elegante, ativa e cheia de personalidade, dessas que gostam de “arrumar um barraco” de vez em quando. Descobri os nomes ao ouvir a moça chamá-las com carinho e constância, como quem conversa com velhas companheiras.
Fiquei observando aquela cena com ternura. Pensei no motivo que teria levado a dona a nomeá-las com nomes de joias raras. Talvez porque, de fato, eram o seu maior tesouro. Enquanto as duas cadelas puxavam a moça pelas ruas do bairro, ela sorria. Um sorriso leve de quem sabe que está segurando a felicidade pelas mãos.
O amor e a cumplicidade que uniam aquelas três almas por uma única coleira era comovente. Oito patas atadas por laços invisíveis ao coração daquela jovem, que não precisava dizer nada: os olhares trocados entre elas diziam tudo. Havia ciúmes, disputas por um colo, pequenas birras. Mas também havia calma, acolhimento, entrega. Era um laço sem cobranças, sem regras ,um vínculo puro, que se bastava na alegria da convivência.
Ao vê-las, me peguei refletindo sobre nossas relações humanas, tantas vezes marcadas por ruídos, desconfianças e distâncias. Será que andamos esquecendo do “olho no olho”? Por que tanto se resolve no grito, na rigidez, no “dente por dente”? Onde se perdeu a ternura?
Em determinado momento, a moça pegou Jade no colo. Ágatha, indignada, correu e começou a pular em suas pernas, exigindo seu lugar de volta. A cena poderia terminar em confusão, mas bastou um carinho, um gesto suave da dona sobre a cabeça de Ágatha, para que tudo se acalmasse. Um afago que dizia: “Eu também te vejo”.
E assim seguiram adiante, sobre as pedrinhas soltas do asfalto quente, as oito patas preciosas que, juntas, davam sentido à caminhada de uma moça , que talvez tenha encontrado, naquele pequeno ritual cotidiano, um jeito muito simples de ser feliz.
O nome dela é Camila Santos Oliveira, tem 21 anos, é estudante de Psicologia ,e talvez, sem perceber, já tenha compreendido na prática o que muitos ainda buscam nos livros: que amor, afeto e presença são as terapias mais profundas da vida.

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