Semeador de histórias
O telefone toca. Do outro lado, uma nova missão. Ele escuta, anota o endereço e sorri. Já sabe: é dia de partir. No dia marcado, a preparação é simples. Pega a mochila, escolhe os livros com carinho, ajeita tudo com cuidado e sai. Vai como quem planta. Vai como quem sonha.
Para muitos, a leitura é importante. Para Aélcio de Bruim, a leitura é a própria vida. É paixão, é pulsação, é o que mantém o coração batendo com força. Professor aposentado, escritor , leitor incansável, ele não sossega enquanto não vê a literatura ganhar asas.
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, terra de Rubem Braga, Aélcio tem no peito o mesmo amor pelas palavras que o cronista consagrou. Autor de contos, poesias, cordéis e memórias, ele não guarda para si o que escreveu. Ao contrário: leva seus livros às escolas públicas da cidade, entrega cada exemplar como quem entrega um presente sagrado. E faz isso com as próprias mãos, com o próprio tempo, com o próprio coração. Seu amor pela literatura foi lapidado ainda na juventude, nos corredores da UFES, no início da década de 1980, onde estudou com mestres e doutores das letras, e fez amizades com poetas e escritores. Ali, aprendeu que quem escreve um conto, uma poesia, uma crônica, abre janelas,e que através delas, é possível enxergar a vida com bons olhos. Hoje, aposentado, Aélcio segue levando leituras a crianças, adolescentes e jovens, porque acredita que a leitura melhora o ser humano .E pessoas melhores formam famílias melhores, um mundo melhor.
Fico imaginando o que se passa dentro dele quando vê aqueles olhos pequenos, atentos, brilhando ao receber um livro. Que mundo se abre ali? Que laço silencioso se forma entre o escritor e a criança? Há algo que transborda nessas entregas ,algo que não cabe em palavras. Porque, para a criança, é um presente. Mas, nos olhos de Aélcio, também há encantamento. Ele parece dizer : “O futuro está em você. Você pode. Você é capaz.”
Esses encontros são mais do que visitas escolares. São celebrações,marcos na vida de quem dá e de quem recebe. Mesmo aqueles pequenos que ainda não sabem ler recebem o gesto com uma reverência silenciosa, como se reconhecessem ali um jóia rara, uma força boa. O livro chega antes das palavras. E o afeto chega antes do entendimento.
Aélcio não distribui apenas livros. Distribui sementes. Em tempos de telas, pressas e distrações, ele escolhe semear devagar. Compete com o barulho do mundo, com as luzes dos celulares, com as seduções do agora. E mesmo assim insiste. Mesmo assim acredita.
Ah, seu Aélcio… Que grandeza há nesse gesto tão simples. O senhor carrega consigo o dom mais bonito que há: o dom de amar. De doar tempo, palavra e esperança. Aos 74 anos, poderia ter parado. Poderia ter escolhido o descanso. Mas escolheu seguir. Escolheu insistir.
E aí fica uma dúvida que não se cala: quem ganha mais com tudo isso? A criança que recebe o livro? Ou o semeador que vê a alma florescer diante do próprio gesto?
Quem dera o mundo existissem mais pessoas como Aélcio . Gente que espalha letras por onde passa. Gente que entende que ler é liberdade. E que plantar histórias é, na verdade, plantar futuros.
@aelciodebruim

Amei o texto sobre o professor Aélcio, em poucas palavras você resumiu a personalidade dele, e sua incansável vontade de levar a leitura aos estudantes... Fiquei emocionada... Parabéns!
ResponderExcluirQue história linda!
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