terça-feira, 29 de julho de 2025


 

Ela sempre esteve lá

Ela sempre esteve lá. Todos os dias, quando chegava da escola com muita fome, antes de qualquer mordida no prato, vinha o compromisso: rezar o terço com sua mãe, acompanhando a Rádio Cachoeiro. Quem não rezasse, não comia. Parecia uma obrigação. Mas foi assim, por meio dessa rotina que se tornou obediência, que nasceu e permaneceu algo maior: a fé.

Poderia ser uma história de tristezas, angústias e desolação, mas é uma história de fé. Marilete viveu uma infância entre experiências positivas e negativas, percorreu muitos caminhos, alguns desconhecidos, outros dolorosos, e, em todos eles, lá estava ela: a sua fé.

Esse sentimento nasceu daquela “obrigação” de rezar o terço, e cresceu acompanhada pelas mãos de Deus e de Nossa Senhora. Desde cedo, Marilete aprendeu que bastava se ajoelhar para que Deus a ouvisse. Os sinais d’Ele a seguiram por toda a vida. Na adolescência, nos grupos de jovens; na juventude, grávida, ao passar pela Igreja da Consolação, em Cachoeiro de Itapemirim – ES, ela parava para conversar com Nossa Senhora da Pompéia. Não se importava com os olhares curiosos , seus olhos fixavam os olhos doces da imagem, e, em sua intimidade, sentia a certeza de que tudo o que pedia por meio daquela intercessão seria atendido.

Com o tempo, a intimidade com Deus cresceu. Ela passou a entrar na igreja para conversar diretamente com Jesus. Ali era seu lugar sagrado, onde depositava sonhos distantes e segredos guardados.

            A conversão veio como um voo entre mundos. Quando o medo surgia, ela ouvia nitidamente:
            — Filha, comece amando o meu povo. O amor supera tudo.

Mas o medo da morte… esse foi um muro. Um buraco sem saída. A provação chegou de forma inesperada. Primeiro uma dor de cabeça, depois um mal-estar insistente. Ela perguntava a Deus onde estava a resposta. Durante uma missa, abriu o coração. Reclamou com Deus. A revolta ameaçava emergir. E então ouviu:

            — Cuide do seu lado direito.

Confusa, questionou. Era o coração que doía, não o lado direito. Mas a frase se repetia:

__ Cuide do seu lado direito.

Ela ouviu. E investigou. Exames, esperas, diagnósticos… Até que veio a notícia: câncer de mama. O mundo desabou. A dor cresceu. Mas ela estava lá: a fé. Aquela mesma fé plantada nas primeiras ave-marias aos doze anos. Agora, ela era o que sustentava.

Veio o deserto. Quimioterapia. Radioterapia. Perda dos cabelos. Dores intensas.

Eu chorava muito com aquela situação... Cheguei a pedir a morte.

Mas a fé não permitiu que ela se rendesse. Com a ajuda da família, dos profissionais e, principalmente, de Deus, Marilete reencontrou o que realmente importava: lutar pela vida. Abriu o baú da sua alma e resgatou aquela mulher que falava com os olhos de Nossa Senhora, que se ajoelhava aos pés de Jesus. Percebeu que precisava se amar acima de tudo. E aquela frase que tantas vezes ouvira de Deus começou a fazer sentido. Através da dor, enxergou a transformação. A doença se tornou instrumento para Deus agir onde ela mesma não conseguia.

E foi pela fé que Marilete venceu. Venceu a dor. Venceu o medo. Venceu o câncer.

Porque ela sempre esteve lá.
A fé.
Silenciosa, firme, viva.
A força que não falha quando tudo parece desmoronar.
A voz que ainda hoje sussurra:
O amor supera tudo.


quarta-feira, 23 de julho de 2025


 

Ritmo 

“Todo começo é doloroso. Lembrar dos processos é difícil. Todas as dores que passamos para alcançar nossos objetivos são marcas que carregamos. Não importa o lado da moeda em que estamos, se somos empreendedores ou contratados, a base é sempre a mesma: manter-se firme, saber o seu valor, confiar no seu diferencial.

Eu sempre soube qual era o meu. Desde o início, mesmo quando tudo o que eu tinha era uma caixinha de som e uma iluminação simples, meu coração sabia o que queria. Aquela luz que piscava, quase sem força, acendia dentro de mim uma vontade que não cabia no peito. E é exatamente isso que me deu coragem. Hoje, ao abrir os olhos todas as manhãs, olho ao redor, vejo até onde cheguei e agradeço a Deus por manter meus pés firmes na essência.”

O caminhão estaciona. No compasso calmo da manhã ou no silêncio de uma madrugada qualquer, ele para diante do depósito e, aos poucos, começa a ser preenchido. O que se coloca ali dentro não são apenas equipamentos. São sonhos. São partes de histórias embaladas com zelo: caixas de som, luzes, painéis, TVs, cabos enrolados com cuidado. Cada item é carregado com o mesmo respeito com que se manuseia algo frágil. Ao fechar a porta e girar a tranca, o que se sela ali é o início de mais uma história a ser escrita.

Realizar. Esse sempre foi o maior propósito de Dj Malini. Levar alegria. Criar momentos. Acender emoções. No Espírito Santo, ele se tornou ícone no ramo de estruturas e eventos. Mas por trás do nome respeitado e da referência que se construiu, existe o menino curioso: Anderson Malini de Souza. O menino que viveu muitas infâncias , carregando nas malas pequenas, lembranças e grandes aprendizados.

A ausência do pai deixou espaço. Mas não vazio. Foi preenchido pela força silenciosa e determinada da mãe que sempre  foi a sua direção. Falar dela ainda hoje traz emoção.

Na casa onde cresceu, não se pronunciava a palavra “desistir”. Não havia espaço para “não consigo” ou “é impossível”. A mãe puxava força de onde ninguém via. E fez isso por todos os dias da vida dele. Plantou convicções que o acompanharam em cada passo, mesmo nos mais difíceis.Tornando assim possível , os sonhos distantes.

A música não foi o primeiro sonho. No ensino médio, Anderson seguia outro caminho. Cursou Biologia, chegou a vislumbrar uma vida entre laboratórios e estudos da natureza. Ainda guarda com carinho esse tempo, esse desejo, esse rascunho de futuro. Mas o coração tinha outra batida. E ele escutou.
Começou pequeno. Uma caixinha de som. Uma luz. Um espaço simples e uma vontade imensa. De festa em festa, de evento em evento, foi colocando a alma em cada entrega.

Entrar no mercado foi como entrar em um mar já cheio de embarcações. Havia gigantes. Nomes grandes. Estruturas consolidadas. E ele, do lado de fora, apenas com a vontade. Mas não se intimidou. Tinha algo que não se comprava: os pés fincados na verdade e na vontade.

Dj Malini sempre acreditou que reinventar-se é sobreviver. Guarda com ele a história da águia, que, ao envelhecer, precisa fazer escolhas: ou se deixa morrer, ou arranca as próprias penas, quebra o bico e nasce de novo. E foi isso que ele fez diversas vezes. Mas a virada, a grande transformação, veio com a paternidade. Sara chegou como um novo começo e, com ela, ele descobriu que ser pai é construir outro tipo de estrutura: invisível, mas sólida , um alicerce de presença, de exemplo, de cuidado. Com Gaby, a esposa, veio a base do lar: a certeza de um amor que acolhe e fortalece.

Hoje, Anderson entende que a vida se parece com uma batida musical. Tem momentos que explodem, outros que silenciam. Tem graves, tem agudos. Tem pausa, tem intensidade e aprendeu a dançar conforme a música. Aprendeu que o botão do volume está nas mãos de quem tem coragem. E que vale a pena insistir. Sempre. Porque no fim, o que sustenta a sua  caminhada é isso: um ritmo forte, que vem de dentro e não permite parar.


@djmalini_oficial

terça-feira, 22 de julho de 2025


 

Curvas

 Você não é o que te aconteceu, você é o que escolhe se tornar.” Foi o que o pai de Lany Correia disse quando ela ainda era uma menina de onze anos. A frase veio como semente e, com o tempo, criou raízes profundas.

Naquela época, o mundo de Lany ruía em silêncio. A separação dos pais não foi apenas uma ruptura familiar, mas uma convocação precoce à responsabilidade. A infância, que deveria ser tempo de acolhimento e proteção, foi interrompida por escolhas que nenhuma criança deveria ter que fazer, como cuidar do pai e do irmão, tentando preencher os vazios que a ausência materna deixou.

Foi justamente ali, no meio da incerteza, que ela aprendeu que a dor pode ser reescrita. Decidiu que não seria uma consequência do que lhe aconteceu, mas autora do que viria a ser. A frase do pai virou farol em meio ao caos. E ela, ainda tão jovem, começou a praticar uma das habilidades mais raras e corajosas que alguém pode desenvolver ao longo da vida: ressignificar.

Ressignificar não é esquecer. É transformar. É olhar para as perdas e decidir que elas não vão te definir. É ensinar aos próprios olhos um novo jeito de enxergar a realidade. E foi exatamente isso que Lany fez, inúmeras vezes, mesmo quando tudo parecia conspirar contra.

A adolescência não trouxe abrigo, trouxe mais um teste. Tornou-se mãe muito jovem e, logo depois, já vivia a maternidade solo. Era como se a vida lhe entregasse, em cada fase, uma nova prova de resistência. E ela seguia, sem manual, mas com um senso de missão que impressiona. O sonho não era apenas sobreviver, era garantir aos filhos um lugar onde eles pudessem crescer com dignidade, valores e sonhos. Um lugar onde ser feliz não fosse luxo, mas direito.

Sem modelo materno, ela precisou inventar-se mulher. E, para isso, teve que primeiro educar a si mesma. Nessa travessia, descobriu que ensinar valores exige mais do que palavras: exige coerência. E, mesmo sem ter tido muitos exemplos, ela se tornou um.

Foi construindo seu caminho a partir das pequenas possibilidades que a vida oferecia. Quando olhava para os filhos e via neles alegria, esperança e ética, sentia que estava no rumo certo. Não havia mapa, mas havia bússola, havia GPS, e eram eles.

Trabalhou em lanchonete, fez cursos de beleza, tentou com coragem empreender com uma loja de roupas online. Não deu certo, mas ela não se deteve. Desabafou com uma amiga e, ao ouvir a sugestão de fazer um curso de cabelo, sua primeira reação foi rir. Como poderia cuidar do cabelo alheio se nem sabia lidar com o próprio? Mas foi. E foi ali, onde tudo parecia improvável, que descobriu seu dom. Descobriu o talento, o amor pela técnica, a sensibilidade que suas mãos tinham ao tocar uma história contada em fios.

Hoje, é referência na área, especialista em cabelos com curvaturas. E sua atuação vai além da estética. Ela toca vidas. Ensina outras mulheres a se aceitarem como são, resgata a identidade que muitas tentaram esconder ou esquecer. Cabelo, para ela, é território de autoestima, é lugar de pertencimento. Ao cuidar de cada cabelo, ela afirma que você pode ser você. E isso basta.

A história de Lany, 39 anos, é um retrato de força, reinvenção e escolha. Ela mostra que não precisamos aceitar os rótulos que a vida tenta nos impor. Que é possível transformar ausência em presença, dor em propósito, fragilidade em firmeza. Sua trajetória além  um exemplo de superação, é um lembrete poderoso de que todos nós temos o direito e a responsabilidade, de nos tornarmos quem desejamos ser. Porque, no fim, o que realmente nos define não são as curvas da vida, mas o caminho que decidimos tomar.

 


segunda-feira, 21 de julho de 2025


 

                                                                   Semeador de histórias

 

O telefone toca. Do outro lado, uma nova missão. Ele escuta, anota o endereço e sorri. Já sabe: é dia de partir. No dia marcado, a preparação é simples. Pega a mochila, escolhe os livros com carinho, ajeita tudo com cuidado e sai. Vai como quem planta. Vai como quem sonha.

Para muitos, a leitura é importante. Para Aélcio de Bruim, a leitura é a própria vida. É paixão, é pulsação, é o que mantém o coração batendo com força. Professor aposentado, escritor , leitor incansável, ele não sossega enquanto não vê a literatura ganhar asas.

Natural de Cachoeiro de Itapemirim, terra de Rubem Braga, Aélcio tem no peito o mesmo amor pelas palavras que o cronista consagrou. Autor de contos, poesias, cordéis e memórias, ele não guarda para si o que escreveu. Ao contrário: leva seus livros às escolas públicas da cidade, entrega cada exemplar como quem entrega um presente sagrado. E faz isso com as próprias mãos, com o próprio tempo, com o próprio coração. Seu amor pela literatura foi lapidado ainda na juventude, nos corredores da UFES, no início da década de 1980, onde estudou com mestres e doutores das letras, e fez amizades com poetas e escritores. Ali, aprendeu que quem escreve um conto, uma poesia, uma crônica, abre janelas,e  que através delas, é possível enxergar a vida com bons olhos. Hoje, aposentado, Aélcio segue levando leituras a crianças, adolescentes e jovens, porque acredita que a leitura melhora o ser humano .E pessoas melhores formam famílias melhores, um mundo melhor.

Fico imaginando o que se passa dentro dele quando vê aqueles olhos pequenos, atentos, brilhando ao receber um livro. Que mundo se abre ali? Que laço silencioso se forma entre o escritor e a criança? Há algo que transborda nessas entregas ,algo que não cabe em palavras. Porque, para a criança, é um presente. Mas, nos olhos de Aélcio, também há encantamento. Ele parece dizer : “O futuro está em você. Você pode. Você é capaz.”

Esses encontros são mais do que visitas escolares. São celebrações,marcos na vida de quem dá e de quem recebe. Mesmo aqueles pequenos que ainda não sabem ler recebem o gesto com uma reverência silenciosa, como se reconhecessem ali um jóia rara, uma força boa. O livro chega antes das palavras. E o afeto chega antes do entendimento.

Aélcio não distribui apenas livros. Distribui sementes. Em tempos de telas, pressas e distrações, ele escolhe semear devagar. Compete com o barulho do mundo, com as luzes dos celulares, com as seduções do agora. E mesmo assim insiste. Mesmo assim acredita.

Ah, seu Aélcio… Que grandeza há nesse gesto tão simples. O senhor carrega consigo o dom mais bonito que há: o dom de amar. De doar tempo, palavra e esperança. Aos 74 anos, poderia ter parado. Poderia ter escolhido o descanso. Mas escolheu seguir. Escolheu insistir.

E aí fica uma dúvida que não se cala: quem ganha mais com tudo isso? A criança que recebe o livro? Ou o semeador que vê a alma florescer diante do próprio gesto?

Quem dera o mundo existissem mais pessoas como Aélcio . Gente que espalha letras por onde passa. Gente que entende que ler é liberdade. E que plantar histórias é, na verdade, plantar futuros.


@aelciodebruim

 

domingo, 20 de julho de 2025


 

Atrevida

Atrevida. Palavra que na boca de muita gente soa como desafio, ousadia, até um certo exagero. Mas quando falamos de Danielle dos Santos de Freitas, 42 anos e da sua história, "atrevida" ganha outro peso: o peso leve de quem tem coragem de sonhar quando tudo pede silêncio, de quem planta esperança em plena tempestade.

Foi exatamente assim que nasceu a Maria Atrevida ,uma loja, sim, mas também um abrigo de sonhos. Dani abriu suas portas em plena pandemia, quando o mundo inteiro se recolhia com medo. Atrevida, sim, mas também cuidadosa. Sabia que não era o momento ideal, mas foi o que ela tinha. E quando tudo falta, a gente aprende a fazer do pouco um caminho.

Nunca teve medo de trabalho. O que ela queria era independência, dignidade, liberdade de criar, de sustentar o filho e de, quem sabe, transformar o dia de uma mulher com uma roupa que diz: "Você pode." Porque ela acredita, de verdade, que autoestima também é ferramenta de mudança. Que um look bonito pode ser a primeira ferramenta de uma mulher que está reconstruindo tudo.

O momento de transformação aconteceu quando ela percebeu que não era preciso esperar tudo estar perfeito para começar. Com um filho pequeno  e a força nos próprios passos, decidiu fazer do possível o agora. Atendia com hora marcada, entre tarefas, silêncios e dias em que nenhuma venda aparecia. Mas seguia. Com delicadeza e a persistência de quem sabe que flores não nascem de um dia para o outro , mas nascem.

Dani descobriu que ser mulher de negócio não é só vender. É transformar, inspirar, acolher. E acolhimento, aliás, é o que não falta na Maria Atrevida. Quem passa em frente à loja sente. A vitrine tem sua alma: corajosa, colorida, cheia de intenção. Cada detalhe tem a mão dela,e mais que isso, tem seu olhar.

O momento mais emocionante foi quando a loja dos sonhos deixou de ser apenas um pensamento. Durante muito tempo, ela passava em frente àquele ponto comercial e, mesmo com outra loja ocupando o espaço, já enxergava ali a vitrine da Maria Atrevida. Sempre se pegava pensando: quem sabe um dia... Até que, numa tarde de sexta-feira, viu a cena que parecia um sinal ,a loja estava sendo desmontada. Sem pensar duas vezes, correu até lá. Não tinha o capital necessário, mas tinha fé. Pegou o número, agendou uma visita e, com coragem no peito, decidiu dar mais um passo. Foi ali que tudo mudou. Ela viu a mão de Deus em cada detalhe , e entendeu que fé é capital de investimento , e  que quando o sonho encontra a coragem, o impossível se abre.

Hoje, Dani e “Maria Atrevida” se confundem. A empreendedora e a loja são espelhos uma da outra. “Sou Maria também”, ela diz com sorriso no rosto. É sim. Porque ser atrevida, no fundo, é isso: começar mesmo com medo, continuar mesmo sem aplauso, e acreditar mesmo quando ninguém mais acredita.

A história de Dani é sobre processos. Sobre passos que doem, que cansam, que parecem lentos, mas são exatos. Não existe atalho pra quem quer algo verdadeiro. É preciso respeitar o tempo das coisas, o tempo do casulo, o tempo da coragem nascer.

E se tem algo que Dani nos ensina, com cada peça que pendura e com cada mulher que acolhe, é que não existe vitória sem entrega. E que às vezes, ser atrevida é o único jeito de ser inteira.

@mariaatrevida