Ela sempre esteve lá
Ela sempre esteve lá. Todos os dias, quando chegava da escola com muita fome, antes de qualquer mordida no prato, vinha o compromisso: rezar o terço com sua mãe, acompanhando a Rádio Cachoeiro. Quem não rezasse, não comia. Parecia uma obrigação. Mas foi assim, por meio dessa rotina que se tornou obediência, que nasceu e permaneceu algo maior: a fé.
Poderia ser uma história de tristezas, angústias e desolação, mas é uma história de fé. Marilete viveu uma infância entre experiências positivas e negativas, percorreu muitos caminhos, alguns desconhecidos, outros dolorosos, e, em todos eles, lá estava ela: a sua fé.
Esse sentimento nasceu daquela “obrigação” de rezar o terço, e cresceu acompanhada pelas mãos de Deus e de Nossa Senhora. Desde cedo, Marilete aprendeu que bastava se ajoelhar para que Deus a ouvisse. Os sinais d’Ele a seguiram por toda a vida. Na adolescência, nos grupos de jovens; na juventude, grávida, ao passar pela Igreja da Consolação, em Cachoeiro de Itapemirim – ES, ela parava para conversar com Nossa Senhora da Pompéia. Não se importava com os olhares curiosos , seus olhos fixavam os olhos doces da imagem, e, em sua intimidade, sentia a certeza de que tudo o que pedia por meio daquela intercessão seria atendido.
Com o tempo, a intimidade com Deus cresceu. Ela passou a entrar na igreja para conversar diretamente com Jesus. Ali era seu lugar sagrado, onde depositava sonhos distantes e segredos guardados.
A conversão veio como um voo
entre mundos. Quando o medo surgia, ela ouvia nitidamente:
— Filha, comece amando o meu povo. O amor supera tudo.
Mas o medo da morte… esse foi um muro. Um buraco sem saída. A provação chegou de forma inesperada. Primeiro uma dor de cabeça, depois um mal-estar insistente. Ela perguntava a Deus onde estava a resposta. Durante uma missa, abriu o coração. Reclamou com Deus. A revolta ameaçava emergir. E então ouviu:
— Cuide do seu lado direito.
Confusa, questionou. Era o coração que doía, não o lado direito. Mas a frase se repetia:
__ Cuide do seu lado direito.
Ela ouviu. E investigou. Exames, esperas, diagnósticos… Até que veio a notícia: câncer de mama. O mundo desabou. A dor cresceu. Mas ela estava lá: a fé. Aquela mesma fé plantada nas primeiras ave-marias aos doze anos. Agora, ela era o que sustentava.
Veio o deserto. Quimioterapia. Radioterapia. Perda dos cabelos. Dores intensas.
— Eu chorava muito com aquela situação... Cheguei a pedir a morte.
Mas a fé não permitiu que ela se rendesse. Com a ajuda da família, dos profissionais e, principalmente, de Deus, Marilete reencontrou o que realmente importava: lutar pela vida. Abriu o baú da sua alma e resgatou aquela mulher que falava com os olhos de Nossa Senhora, que se ajoelhava aos pés de Jesus. Percebeu que precisava se amar acima de tudo. E aquela frase que tantas vezes ouvira de Deus começou a fazer sentido. Através da dor, enxergou a transformação. A doença se tornou instrumento para Deus agir onde ela mesma não conseguia.
E foi pela fé que Marilete venceu. Venceu a dor. Venceu o medo. Venceu o câncer.
Porque ela
sempre esteve lá.
A fé.
Silenciosa, firme, viva.
A força que não falha quando tudo parece desmoronar.
A voz que ainda hoje sussurra:
— O amor supera tudo.




